Ondjaki
O DECISIVO ALMOÇO
Há quem já saiba desta pequena estória. Mas é curiosa e
posso redizê-la (redizer é um modo angolano, moçambicano
e/ou brasileiro de dar novo corpo à estória. Não necessaria-
mente por invento; mas por acrescento de detalhes antes
omitidos).
Foi num almoço em Lisboa, com o editor angolano
Jacques Arlindo dos Santos. Já havíamos resolvido a refei-
ção e os primeiros mujimbos. E o editor colocou a questão
abertamente: a sua editora estava a preparar uma coleção
sobre a independência de Angola. Tudo ficção, nesse viés:
Angola, 1975. O editor afirmava que já tinha grandes no-
mes garantidos. Agora era garantir os pequenos nomes
sem garantia. Mas: tinha que ser romance.
— Alguma ideia? Algum caminho?
"Boas lembranças, camaradas: faz este ano um quarto de século"
uma edição especial
Entre a memória do lugar e o sonho de um tempo
Rita Chaves
[professora livre-docente de Literaturas Africanas de
Língua Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Hu-
manas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).
Esta reedição de Bom dia, camaradas marca os 25 anos de
seu lançamento em Angola e os cinquenta anos do país, que
tinha àquela época a idade que o livro tem hoje. O nosso
apreço por esses rituais bem justificaria a celebração que o
jogo entre as datas sugere, mas o autor e o livro têm muito
mais a dizer. São, portanto, muitas as razões que nos levam
a saudar a iniciativa da editora ao nos entregar uma nova
edição dessa obra que nos coloca diante dos percursos da
memória e das artes da invenção, uma marca da já alentada
produção de Ondjaki, autor com muitos laços com o Bra-
sil. Além da residência por alguns anos no Rio de Janeiro,
das visitas frequentes e participação em muitos eventos em
diferentes regiões brasileiras, os elos com o nosso país se
revelam nas constantes referências a poetas como Manuel
de Barros e Carlos Drummond de Andrade, de quem são
os versos utilizados na abertura dessa obra.
Bom dia, camaradas inaugurou o roteiro de Ondjaki pelo
terreno da narrativa. Segundo o escritor em várias entre-
vistas, a obra resultou de um convite do editor angolano
para integrar a coleção “Dipanda”, nome pelo qual os da
terra se referem à independência de Angola. A ideia era ter
na alusão aos 25 anos da libertação a voz de alguém que
tivesse nascido perto de 1975, ou seja, de um jovem que
tivesse crescido com o país, que àquela altura tinha na sua
população um enorme percentual de gente mais velha que
o próprio Estado nacional. O desafio foi aceito e o tom au-
tobiográfico conduz o leitor para uma realidade que, sendo
vibrante, não camufla a atmosfera de instabilidade da vida
naqueles anos. Se a leitura meramente objetiva nos leva à
dominância da precariedade, com a atenção fixada nos olhos
do menino que narra podemos avançar na compreensão de
um mundo em movimento, em que a falta é só um dos ele-
mentos, e não é o mais importante. Tal balanço se confirma
em Os da minha rua e AvóDezanove e o segredo do soviético, os
outros dois títulos da trilogia. Entre esses três volumes, a
despeito das diferenças de estrutura, há um sentido de uni-
dade que vem confirmar a densidade do projeto de Ondjaki.
Quem acompanha um pouco da trajetória da literatu-
ra angolana certamente identificará no clima da cidade de
Luanda espaço primordial do universo literário angolano
aqui retomado por Ondjaki, sinais que são trabalhados por
duas narrativas emblemáticas dessa época: Quem me dera
ser onda, de Manuel Rui, e O cão e os caluandas, de Pepetela,
ambas já publicadas no Brasil. À independência não se se-
guiu a estação da harmonia que a utopia anunciava e a festa
da libertação foi violentamente perturbada por problemas internos e grandes questões externas, como a ameaça da
África do Sul ainda dominada pelo apartheid e as pressões
da guerra fria que se traduziam na continuidade da guerra
entre o governo angolano nas mãos do MPLA (Movimento
Popular de Libertação de Angola) e a Unita (União Nacional
pela Independência Total de Angola), um grupo oposicio-
nista apoiado pelas potências ocidentais. Essa complicada
atmosfera é percorrida por Manuel Rui e Pepetela, com hu-
mor e sagacidade, ambos tentando captar o sinuoso percurso
dos angolanos entre o desalento, a resistência e a esperança.
Em Bom dia, camaradas, a maior novidade é que a cidade
é agora visitada em um texto de tonalidade autobiográfica
guiado pela perspectiva de uma criança que, efetivamente
vai crescendo no compasso do novo país, um menino que
é herdeiro do sonho e passageiro da difícil transição para
o desencanto.
Recorrendo a um tipo de registro que faz lembrar o de um
diário pouco convencional, esse narrador escreve como quem
conversa consigo próprio, procurando em suas andanças pelos
lugares captar a força desse tempo que ele gostaria de reter,
a despeito do espanto que as vicissitudes possam provocar
no leitor situado fora daquele espaço e daquela época, o que
pressupõe o desafio de temperar o que nos pode parecer in-
sólito com a naturalidade com que cada fato era vivenciado.
O contraponto entre a nota familiar expressa diante das aven-
turas de cada dia e a consciência de quem sabe que se trata
de eventos singulares é um dos eixos do modo de composição
do enredo. Dessa forma, no desenrolar dos acontecimentos
mantém-se um ponto de vista capaz de associar o esclarecimento à tensão do momento histórico a ser vivido.
Nas observações sobre o que se passa à volta do meni-
no, a inocência mistura-se a uma argúcia que se confronta
com a normalização de outros mundos, como se nota nas
conversas com a tia que, tendo vivido no território coloni-
zado, vem visitar a família no país independente. A terra é
a mesma e já não é. A falta de limpeza nas ruas e a escassez
de produtos — problemas apontados pelo camarada Antó-
nio, o empregado nostálgico do “antigamente” — e outras
questões geradoras da perplexidade da senhora contras-
tam com a altivez ostentada pela maioria da população que
agora respira a autonomia outrora confiscada pelo regime
colonial. Na aparente ingenuidade de suas análises é esse
o sentimento que o menino exibe, ocultando e desvelan-
do, simultaneamente, o conhecimento mais fundo de uma
realidade que requer o recurso à imaginação para ser des-
vendada, exigência posta também ao leitor.
Os capítulos, sempre curtos, não são apresentados por
títulos, mas por uma espécie de epígrafe interna, pois se
compõem de fragmentos da fala de um personagem ou da
reflexão do narrador que, como uma espécie de síntese do
que importa, estabelece a mediação entre o que virá e o
leitor, assim orientado em meio aos impactos do mundo que
vai conhecer. A opção por capítulos breves é também uma
estratégia para fomentar nesse leitor a faculdade de visua-
lizar as cenas fazendo com que a narrativa seja apreendida
no ritmo das histórias em quadrinhos, recurso que pode
sugerir que a obra se restrinja ao público infantojuvenil.
Trata-se, entretanto, de uma recusa dos moldes da literatura
bem-comportada, como uma aposta na simplicidade não
como facilidade, mas como um investimento na quebra das convenções de um modelo cultural que já não se adapta a
essa nova sociedade que precisa se organizar.
A apresentação desse mundo em ebulição é acompa-
nhada pelo cuidado em afastar a tentação do exótico na
apreensão do dia a dia de uma cidade em convulsão por
um narrador que persegue o equilíbrio entre a temática e a
estrutura, procurando a difícil conexão entre a proposta ética
que o mobiliza e o tratamento da forma, compromisso que
demanda grande atenção com a linguagem, terreno, aliás,
muito bem percorrido pelo escritor. A tarefa que ele se coloca
é capciosa: encontrar a sábia medida que destaca o peculiar
de sua experiência sem isolar a particularidade de cada fato
vivido. Como falar do que lhe parece normal para aqueles
que pela distância temporal ou geográfica julgarão quase
impossível? Aquelas décadas entre a sua infância e a sua
adolescência já parecem muito longe dos próprios habitantes
de Luanda. Um de seus objetivos é, portanto, também o de
reacender lembranças e fazer da memória uma aliada para
o resgate de certos sentimentos.
Filho de antigos guerrilheiros, que depois de 1975, se
situam nos primeiros escalões da administração do país, o
menino que conta a sua história circula por vários ambien-
tes e dá-nos, por isso, uma visão mais aguda das mudanças
vindas com a libertação e das transições em curso. Aparen-
temente banal, seu relato nos põe a par da dimensão dos
projetos e das limitações encontradas, apresentando-nos
alguns dos signos dessa fase em que ainda estavam presentes
a hipótese do equilíbrio social como o cartão de abasteci-
mento e a existência de uma escola, na qual estudavam o
filho de uma família que dispunha de um cozinheiro e o Murtala, habitante de uma casa onde “quando chove, só
podem dormir sete de cada vez, os outros cinco esperam
todos encostados na parede onde há um tetozinho que lhes
protege”. Essas são as janelas por onde somos convidados a
observar esses tempos nesse lugar.
Se o universo infantil é frequentemente identificado com
a inocência que contagia a leitura das coisas, na criação de
um narrador menino, nessa obra, nada há de ingênuo. Mais
seguro será ver o gesto como uma prática eficiente para nos
fazer mergulhar em um processo histórico desafiante, que
nos obriga a lidar inclusive com a morte como uma presença
constante na infância, seja como um fato, seja como uma
ressonância em seu cotidiano, pois a guerra corta os dias
dos personagens e esse é outro aspecto surpreendente da
narrativa. Muito embora seja a guerra o pano de fundo desse
roteiro, onde poderia haver apenas desalento, a leveza é a
nuance mais forte e recorta alguns mecanismos que podem
até iludir o leitor que, se não avança sobre o “fingimento”
como traço fundamental da representação literária, deixa
de perceber outras presenças determinantes no relato. Em
outras palavras, a despeito dos ecos da tragédia que toda
guerra aporta e do tom memorialístico do texto, não se ob-
serva o vínculo da literatura de Ondjaki com os textos de
testemunho tão cultivados em territórios em que a exceção
é um dado de definição. Como narrador-protagonista de um
relato em que o caráter autobiográfico é nítido, no balanço
das coisas, ele procura depurar a situação de vítima, como
quem reconhece a legitimidade de um certo pudor perante
a vivência de uma infância privilegiada em comparação com
a vida de outras crianças diretamente expostas à catástrofe.
O caminho do despojamento, sempre tocado por uma
certa ironia, se articula com uma tonalidade coloquial e a
quebra da norma culta é acertada sobretudo porque, ao
assegurar além de assegurar a distensão do discurso, traduz
a necessária convergência entre a voz narrativa e os perso-
nagens envolvidos na trama, reforçando o elo com o desejo
de romper os condicionalismos coloniais que caracterizavam
aquele contexto. A sensação de alívio trazida pelos ventos
da libertação também se reflete na procura de uma língua
que, tendo sido imposta pelo invasor português, possa es-
tabelecer algumas diferenças com o padrão lusitano. Não
dispondo de outro idioma, mas sensível à fatalidade que o
uso da língua colonial representa, o colonizado, mesmo após
a libertação política, se vê enredado em muitos dilemas, dos
quais Ondjaki tem profunda consciência, dado aprofundado
no forte contato com a literatura brasileira.
Desde as primeiras páginas, em Bom dia, camaradas o tra-
tamento da linguagem capta o interesse do leitor porque nos
alerta para a compreensão do trabalho com a língua como
uma base da identidade. A pluralidade linguística existente
no imenso território sob o domínio de uma potência colo-
nial impôs desafios imensos aos angolanos, tanto no plano
político ligado à gestão do novo estado, quanto no que se
refere ao processo de constituição da identidade cultural,
no qual a literatura foi sempre parte relevante. Desde o
século XIX o ofício da escrita se instalou no centro de im-
passes diretamente ligados à necessidade de moldar uma
língua literária no quadro da inescapável convivência entre
a língua colonial e as várias línguas da terra. Os escritores
envolvidos na fundação da chamada moderna literatura angolana, atentos às opções dos nossos modernistas, não
escondiam sua preocupação na busca de um código que
refletisse a transculturação como uma condição histórica.
Tendo em José Luandino Vieira o seu nome mais destaca-
do, a literatura angolana, em seu percurso, soube explorar
roteiros de diferenciação linguística no campo do léxico, da
sintaxe e da semântica, buscando se aproximar da “língua
errada do povo/língua certa do povo”, na inspirada lição de
Manuel Bandeira tão conhecida dos brasileiros.
Na linha de seus “mais-velhos”, Ondjaki não se afasta do
compromisso de deixar firmes os laços entre a prática literária
e o projeto de país que, acalentado por tanto tempo, precisava
ser reinventado a partir de uma proposta em que o projeto de
autonomia pressupunha a presença da imaginação. Tudo estava
para ser recriado e a língua precisava fazer-se linguagem dessa
nova sociedade. Em Bom dia, camaradas são visíveis os sinais de
ruptura no plano lexical, morfológico e sintático, assegurando,
na quebra da norma linguística, a apropriação de um sistema
muito mais próximo das falas que ecoavam pelas ruas da ci-
dade. A combinação de construções sem respeito às normas
gramaticais com expressões como “bué”, “um coche”, “mua-
diê”, próprias do registro angolano, elevam certa irreverência
que nada tem de artificial. A aparente naturalidade confere um
encanto especial ao texto, fazendo dele também um documento
dessa batalha que tem na língua uma arena importante.
A juventude do autor quando estreia na carreira, ao con-
trário do habitual, não gerou uma vontade de cortar laços
com a geração que lançou as bases da literatura e ajudou a
inventar o país. Nota-se em vários pontos a sua busca de inte-
gração na comunidade que tornou visível a luta de libertação dos angolanos e investiu na decolonização de seu projeto
cultural. A centralidade de Luanda é já um ponto de ligação
com as gerações de duas das publicações mais significativas
na história da literatura angolana: a revista Mensagem e o
boletim Cultura. Nessa busca de pertença, ele amplia a rede
de aliança e traz inclusive a voz de Óscar Ribas, escritor nas-
cido no começo do século XX, não muito afeito às correntes
dominantes da proposta abraçada por essas duas gerações,
mas dono de um importante trabalho no campo das tradições
angolanas, de que a gastronomia é um exemplo. Ribas aqui
está presente nas epígrafes em que a saudade dá o tom.
Além da atenção concedida à língua portuguesa, insis-
tindo fortemente no que podemos reconhecer como a sua
angolanização, Ondjaki se aproxima de seus antecessores
também ao acolher em sua formação a fuga à padronização
dos gêneros literários e o cultivo da oralidade, procedimen-
tos que se mostram relevantes na mobilidade de seu texto.
Com sutileza, a poesia é convocada para fazer da falta da
rigidez uma qualidade que, se não dá ao texto o desenho
histórico das situações em foco, assegura o desembaraço do
narrador que escancara a sua subjetividade como um ele-
mento apoiado no lastro do real. De acordo com o escritor
Luiz Ruffato, no prefácio da edição brasileira de 2006 de
Bom dia, camaradas, a marcante presença do lirismo deve
ser reconhecida como uma ponta da utopia, essa ideia que,
mesmo difusa, transforma o mundo.
Essa complexa relação entre a forma sinuosa e a ma-
téria que a engendra faz lembrar Minha vida de menina, a
instigante obra de Helena Morley, especialmente na capa-
cidade demonstrada pelas duas narrativas de selecionar os acontecimentos que movem o ato de narrar e na habilidade
de integrá-los na rede armada por cada processo histórico,
combinando a tensão apreendida pela vivacidade da lingua-
gem. Na narrativa angolana, assim se pode compreender o
painel desenhado por episódios como a ida do menino à
Rádio Nacional, a chegada da tia e a cena da fotografia no
aeroporto, a presença e a partida dos professores cubanos, os
encontros com os soviéticos no cotidiano da cidade, a morte
do camarada António. O jogo das perspectivas envolve os
vários pontos de vista e facilita a emergência de uma espécie
de “sentimento íntimo de país e de tempo”, tal como Roberto
Schwarz identificou no fascinante diário de Helena Morley.
Se ao menino Ndalu, como é óbvio, falta acuidade para a
análise mais global da crise em que a sua vida está envolvida,
sobra-lhe talento para ir desvendando as relações humanas e
sociais que se estruturam sob o signo da instabilidade.
No compasso em que os acontecimentos se desenrolam, o
ritmo da narração faz pensar nos fios da memória que o autor
costura, misturando as experiências familiares e afetivas com
os impasses do novo Estado, com as atribulações da vida, tão
confusa aos nossos olhos, desse país em formação. À medida
que avança na seleção de fatos e situações, vemos emergir os
sinais da arbitrariedade e do patrimonialismo conduzindo à
concentração de riqueza, as marcas do autoritarismo compro-
metendo o sonho da igualdade, ou seja, o peso da realidade
fazendo menos verde a esperança que, entretanto, não se
desfaz por completo. Já na abertura do volume, os versos
de “A noite dissolve os homens”, de Carlos Drummond de
Andrade, são utilizados para encenar um diálogo em que a
palavra aurora é substituída pelo nome “Angola”, traduzindo
a aposta na expulsão da “treva noturna”.
Partindo da rememoração, a dicção narrativa é arrasta-
da para o presente, fazendo do narrador-protagonista uma
espécie de passageiro contemporâneo das recordações que
estão na origem do ato de escrever. Entre o presente do
enunciado, povoado pelo sentimento da utopia, e o presente
da enunciação, quando a melancolia já se instala na vida do
menino, há qualquer coisa que nos avisa de que a convicção
um tanto linear que se assinala nas páginas deve ser lida
em seu avesso. É o que nos garante a presença insinuante
da poesia que matiza o movimento da memória e escapa
do risco da “guinada subjetiva” que tantas vezes enrijece o
passado e captura o presente, como nos alerta Beatriz Sarlo.
Com isso, assinala Mia Couto, Ondjaki vai além de recordar
a sua vida, criando uma história para a nossa própria vida.
Como linguagem e representação, a literatura do escritor
angolano abre-se para desvelar ou ocultar outras marcas da
realidade que vamos captando na profusão de sinais que
procuram resgatar um tempo e refundar uma geografia,
apontando para um novo ciclo também tingido pela me-
lancolia que o segundo volume da trilogia iria confirmar.
Anunciada pela água, a nova estação se divide entre a nos-
talgia e a renovação. Ao fim do relato, a imagem da chuva,
materializando o viés poético do texto, vai dar ainda mais
sentido à correspondência entre Angola e a aurora dos versos de Drummond tão bem emoldurados por Ondjaki.